O revelador bife de filé-mignon


A notícia se espalhou com a velocidade da luz e surpreendeu a todos mais que a revelação da receita da famoso bolo de fubá de dona Vivi: o Dr. Mesóclise estava sendo processado por um sujeito, morador novo da cidade, sob a acusação de desviar para seu uso parte da carne que o açougue Faca de Ouro doava, semanalmente, para a Casa de Repouso Vida Feliz, o lar dos velhinhos - carne de primeira, filé-mignon, a mais nobre.

Convém explicar que o Dr. Mesóclise é o o mais ilustre cidadão de Banana Verde, farol ético e moral para as gerações presentes e futuras, receptáculo de extensivos conhecimentos exclusivos e gerais, conjugador emérito de verbos e excepcional colocador de pronomes.

Em resumo, um cidadão acima de qualquer suspeita. 

Por isso a comunidade bananaverdense não teve dificuldade de escolher o seu lado nessa pendenga: o doutor, todos sabem, é incapaz de fazer mal a qualquer pessoa, muito menos aos simpáticos velhinhos da casa de repouso - ainda mais que ele é, como presidente de honra, o principal responsável pelo bem-estar dos internos e até mesmo pela sobrevivência da instituição.

Mas havia um ou outro que tinha lá suas dúvidas sobre a conduta do excelentíssimo doutor. 

A polêmica foi mantida, com episódios que destoavam da calmaria habitual de Banana Verde - as discussões acaloradas no Ponto Chic, o bar frequentado pelo quem-é-quem da cidade, são prova disso -, até o dia em que Sua Excelência, o dr. César Moura, conhecido e respeitado magistrado da comarca, iria pesar, com sua proverbial imparcialidade, os elementos de acusação e de defesa do rumoroso caso.

De um lado, recibos, depoimentos de testemunhas, até mesmo de alguns bons velhinhos moradores da casa de repouso, que juraram que a carne lá servida, três vezes por semana, era cheia de nervos, um tanto dura e de difícil digestão.

Do outro lado, um discurso apaixonado sobre as virtudes de um homem que dedicou sua vida inteira, frugal, como todos sabem, em benefício do progresso de sua amada cidade, sempre desinteressadamente.

Mas o advogado, o célebre dr. Carlos Meriz, foi além das palavras: apresentou uma prova, a seu ver, irrefutável, da inocência do afamado réu.

Chamou para testemunhar dona Marcelina, a faz-tudo da casa do Dr. Mesóclise.

E ela jurou que nunca havia servido para o seu patrão nenhuma receita de carne que não fosse cozida, sempre acompanhada de abundante molho, e que naquela casa onde trabalhava, com orgulho, havia tantos anos, nunca preparara um bife sequer.

- O doutor não suporta carne grelhada ou frita - justificou.

Dito isso, apresentou a prova definitiva da inocência do ilustre cidadão bananaverdense:

- Todos sabem que o filé-mignon fica muito melhor grelhado. Nunca iria jogá-lo numa panela para cozinhar, como o doutor gosta.

Não deu outra.

Em vista de tal testemunho, o meritíssimo juiz dr. César Moura não teve dúvida em inocentar o mais ilustre cidadão bananaverdense.

E, é claro, condenar o acusador a pagar as custas do processo. 

Um exemplo de vida



O baiano Ruy Barbosa era um farol para o dr. Mesóclise.

Desde pequeno admirava aquele brasileiro que, para ele, sintetizava todas as virtudes humanas.


Apreciava, porém, uma em particular: a eloquência do jurista, político, diplomata, escritor, filólogo e tradutor.


Quando se sentia angustiado por qualquer motivo, o dr. Mesóclise evocava a figura de Ruy Barbosa, procurava se lembrar de seus escritos e recitava, baixinho, para si, como uma oração, aquela sentença que era um guia para a sua vida.


Foram tantas vezes que murmurou a citação, que viu as suas palavras passarem pelos seus olhos, que poderia dizê-la de trás para diante.


Era uma beleza!


Naquele momento, ressentido por ser informado que um de seus mais terríveis rivais, aquele Zé da Botica, sujeitinho presunçoso, o havia derrotado para a presidência do Grêmio Literário, o dr. Mesóclise cerrou os olhos, tragou o quanto mais pôde o ar saturado de oxigênio da querida Banana Verde, e ouviu seus lábios rezarem a oração mais que perfeita jamais criada na longa trajetória da civilização:


- De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.


Feito isso, cofiou o bigode, limpou os óculos, pegou a sua bengala e saiu de casa, passo firme, cabeça erguida, certo de que a derrota foi apenas mais um contratempo a ser superado pelo seu inegável talento e força de vontade.


- Derrota-lo-ei na próxima eleição. Não desapontarei a memória do dr. Ruy.


E seguiu adiante para a sua primeira missão do dia - cobrar os juros do empréstimo que fez ao Altino da padaria.

A infância prodigiosa



O dr. Mesóclise não foi uma criança normal. 

Muito mais que brincadeiras, seus interesses eram outros.

Admirava o padre Júlio pela ênfase de seus sermões e o prefeito Joaquim pelos seus discursos contundentes.

Nos dois, o que o fascinava não era o conteúdo da alocução, mas aquela torrente de palavras, muitas sem sentido para ele, hipnotizantes, mágicas.

Um episódio que guarda indelével na memória até hoje, passado há dezenas de anos na escola onde aprendeu as primeiras letras, definiu o que seria na vida - o grande homem que se destacaria entre tantos outros ilustres em sua querida Banana Verde.

- Mesóclise - disse a professora, dona Rutinha -, conjugue o verbo amar.

E antes que ela explicasse que queria apenas que o garoto recitasse um simples presente do indicativo, o pequeno Mesóclise, inspirado pelas mais ternas e eternas musas, ou pelos sermões de padre Júlio e pelos discursos do prefeito Joaquim, disparou, sofregamente, algo que mais parecia sair da pena bilaquiana:

- eu amá-la-ei, tu amá-la-ás, ele amá-la-á, nós amá-la-emos, vós amá-la-eis, eles amá-la-ão.

Dona Rutinha não se conteve, nem se importando com a sucessão insuportável de cacófatos:

- O futuro do presente pronominal... Esse menino é um gênio! 

Foi um dia glorioso para os dois.

Os menos favorecidos


O dr. Mesóclise, preocupado com a crise econômica, que afetava indistintamente todos os cidadãos de sua querida Banana Verde, mas mais fortemente os, como dizia, "menos afortunados", resolveu promover uma campanha filantrópica: que cada um desse ao seu semelhante aquilo que pudesse, num gesto cristão de amor ao próximo.

Durante dias ele esteve presente em todos os lugares da progressista Banana Verde, divulgando, incentivando, ilustrando, com o poder de sua palavra, a importância de ajudar os "menos favorecidos" - ou "afortunados".

- Quem dá aos pobres, empresta a deus. Não podemos deixar os nossos irmãos passar dificuldades. A crise é séria, mas juntos podemos, com nosso trabalho, com nossa generosidade, diminuir os transtornos que ela causa aos nossos irmãos.

A campanha foi um sucesso.

Arrecadou de tudo: das inevitáveis roupas usadas (algumas velhas, mesmo) até dentaduras.

E, para coroar o êxito, o dr. Mesóclise deu uma entrevista para o solerte Augusto Nuno, a voz da rádio Progresso, campeã de audiência na região:

- Parabéns, dr., pelo sucesso da campanha. Os bananaverdenses menos favorecidos o agradecem. Mas diga uma coisa aos nossos queridos ouvintes, uma curiosidade: qual foi a sua doação?

O dr. Mesóclise pigarreou antes de responder, com sua voz inconfundível e seu português irretocável:

- Doei a minha solidariedade. E doa-la-ei sempre que houver necessidade.

No Bar do Toco, tradicional ponto de encontro dos pés de cana de Banana Verde, Zé Gesseiro, um dos mais notórios frequentadores, não resistiu e provocou:

-  Sorte sua, dr., que tem um monte de solidariedade para doar. Na minha ninguém mexe... 

As rugas de preocupação



Com o ar ainda mais circunspecto que o costumeiro, o dr. Mesóclise chamou para o seu austero gabinete de trabalho dona Marcelina, a faz-tudo da casa.

E entrou diretamente no assunto:

- Ouvi dizer que a senhora está vendendo produtos para a beleza das mulheres, perfumes, cosméticos, coisas desse gênero.

- É verdade, dr. - respondeu dona Marcelina, mãe de quatro filhos, avó de uma criança de pouco mais de dois anos, semialfabetizada, assídua telespectadora de novelas, empregada doméstica do dr. Mesóclise havia séculos.

- Nada contra, dona Marcelina. Mas veja, parece-me que ao tomar tal atitude a senhora não estaria de certo modo querendo dizer que o que lhe pago é insuficiente? 

- Imagine, dr. - apressou-se em dizer dona Marcelina, já nervosa.

- Acredito na sua palavra, minha senhora. É que sou daqueles que aprecio a lealdade de meus colaboradores, prezo pelo seu bem-estar, e digo-lhe, francamente, que acho um pouco inapropriado essa sua incursão pelo mundo do comércio.

- Mas dr., são apenas alguns produtos, faço isso em casa, à noite, não atrapalha em nada meu trabalho aqui - justificou dona Marcelina.

- Bem, não quero mais tomar o tempo da senhora, que tem muitos afazeres ainda hoje. Como disse, confio na senhora, embora ainda tenha reservas quanto a essas modernidades... Veja, sou do tempo em que a mulher se dedicava inteiramente ao lar, ao marido, aos filhos...

Dona Marcelina, depois dessa peroração, resolveu ficar calada. E se preparava para sair do sóbrio gabinete de trabalho do dr. Mesóclise quando ele se levantou da cadeira e, esfregando as mãos pálidas, perguntou a ela:

- Antes de se retirar, dona Marcelina, uma curiosidade: a senhora não disporia de algum creme que ajudasse a descansar a minha cútis? É que com tanta preocupação com os destinos desta nossa querida Banana Verde, com tanto a fazer pelo bem da comunidade, sinto que minha face se envelhece mais rapidamente.

- Claro que tenho, dr. Só um instante que eu trago o catálogo para o sr. escolher um dos cremes - respondeu dona Marcelina.

Dito isso, o dr. Mesóclise deixou de lado a sua habitual seriedade e deu um esboço de sorriso, seguido por uma frase apenas:

- Um creme antirrugas servir-me-ia plenamente, dona Marcelina.

A reunião dos notáveis



O dr. Mesóclise, depois de pigarrear de modo a ser notado, abriu a sessão. Em volta da escura, pesada, antiga e sólida mesa de madeira se encontrava a nata da sociedade bananaverdense, ou, como queiram, seus mais notáveis homens de bem. O assunto era de suma importância para a comunidade: afinal, aquele era um caso inédito...

- Senhores - começou o dr. - analisemos com profundidade e de espírito desarmado a questão, para que não tenhamos arrependimentos posteriores. 

O que se seguiu foi uma algaravia de enlouquecer os ouvidos - até mesmo dos serviçais que, no aposento ao lado, tratavam de não faltar nada de comer ou de beber para os ilustres cidadãos que debatiam, tão apaixonada e profundamente, aquele tema espinhoso.

Por fim, passados longos minutos, ouviu-se a voz clara, límpida e sempre sábia do dr. Mesóclise:

- Creio que chegamos a uma conclusão definitiva, que servirá para pautar, doravante, o nosso proceder, a fim de preservarmos a moral, a ética, os bons costumes, a conduta, enfim, dos jovens cidadãos da nossa amada Banana Verde.

E o sr. delegado saiu da vetusta sala instruído para não permitir nunca mais que a Ritinha, no esplendor de seus 18 anos, nem nenhuma outra moça de família bananaverdense, fosse à missa usando peças de vestuário da cor vermelha - berrante, sensualmente provocativa, a cor do pecado.

A decisão agradou sobremaneira o dr. Mesóclise:

- Ser-nos-ia muito desagradável, a nós, homens de bem, não cuidarmos com extremo zelo de nossa juventude - disse, em tom confessional, ao último dos convivas daquela reunião de notáveis, que trocava o calor da sala pelo sereno da noite - a linda noite bananaverdense.

A virtuosa austeridade



Com a Parker 51 rolando nos dedos, o dr. Mesóclise respira profundamente, como se tragasse no ar a sabedoria que herdou de seus ancestrais.

E, depois de sorver um pequeno gole da tépida água que preenche seu longevo copo de cristal, as palavras saem de sua boca como a mais macia seda transportada da distante e misteriosa China:

- A austeridade é condição sine qua non para o efetivo cumprimento das obrigações de um administrador público em consonância com as demandas da sociedade.

Dá uma pausa para que a profundidade de sua sentença seja apreciada pelo mundo mineral, vegetal e animal.

E finaliza:

- Facilitar-me-ia sobremaneira contar com auxiliares desse jaez...

Sem mais, faz a Parker 51 deslizar suavemente sua inconfundível assinatura na folha de papel que decreta a nomeação de mais uma dezena de áulicos como auxiliares de sua espinhosa, dificílima tarefa de levar a sua querida e sofrida Banana Verde, terra natal de tantos ilustres cidadãos, ao seu destino glorioso.