A infância prodigiosa



O dr. Mesóclise não foi uma criança normal. 

Muito mais que brincadeiras, seus interesses eram outros.

Admirava o padre Júlio pela ênfase de seus sermões e o prefeito Joaquim pelos seus discursos contundentes.

Nos dois, o que o fascinava não era o conteúdo da alocução, mas aquela torrente de palavras, muitas sem sentido para ele, hipnotizantes, mágicas.

Um episódio que guarda indelével na memória até hoje, passado há dezenas de anos na escola onde aprendeu as primeiras letras, definiu o que seria na vida - o grande homem que se destacaria entre tantos outros ilustres em sua querida Banana Verde.

- Mesóclise - disse a professora, dona Rutinha -, conjugue o verbo amar.

E antes que ela explicasse que queria apenas que o garoto recitasse um simples presente do indicativo, o pequeno Mesóclise, inspirado pelas mais ternas e eternas musas, ou pelos sermões de padre Júlio e pelos discursos do prefeito Joaquim, disparou, sofregamente, algo que mais parecia sair da pena bilaquiana:

- eu amá-la-ei, tu amá-la-ás, ele amá-la-á, nós amá-la-emos, vós amá-la-eis, eles amá-la-ão.

Dona Rutinha não se conteve, nem se importando com a sucessão insuportável de cacófatos:

- O futuro do presente pronominal... Esse menino é um gênio! 

Foi um dia glorioso para os dois.

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