A reunião dos notáveis



O dr. Mesóclise, depois de pigarrear de modo a ser notado, abriu a sessão. Em volta da escura, pesada, antiga e sólida mesa de madeira se encontrava a nata da sociedade bananaverdense, ou, como queiram, seus mais notáveis homens de bem. O assunto era de suma importância para a comunidade: afinal, aquele era um caso inédito...

- Senhores - começou o dr. - analisemos com profundidade e de espírito desarmado a questão, para que não tenhamos arrependimentos posteriores. 

O que se seguiu foi uma algaravia de enlouquecer os ouvidos - até mesmo dos serviçais que, no aposento ao lado, tratavam de não faltar nada de comer ou de beber para os ilustres cidadãos que debatiam, tão apaixonada e profundamente, aquele tema espinhoso.

Por fim, passados longos minutos, ouviu-se a voz clara, límpida e sempre sábia do dr. Mesóclise:

- Creio que chegamos a uma conclusão definitiva, que servirá para pautar, doravante, o nosso proceder, a fim de preservarmos a moral, a ética, os bons costumes, a conduta, enfim, dos jovens cidadãos da nossa amada Banana Verde.

E o sr. delegado saiu da vetusta sala instruído para não permitir nunca mais que a Ritinha, no esplendor de seus 18 anos, nem nenhuma outra moça de família bananaverdense, fosse à missa usando peças de vestuário da cor vermelha - berrante, sensualmente provocativa, a cor do pecado.

A decisão agradou sobremaneira o dr. Mesóclise:

- Ser-nos-ia muito desagradável, a nós, homens de bem, não cuidarmos com extremo zelo de nossa juventude - disse, em tom confessional, ao último dos convivas daquela reunião de notáveis, que trocava o calor da sala pelo sereno da noite - a linda noite bananaverdense.

Nenhum comentário:

Postar um comentário