Os menos favorecidos


O dr. Mesóclise, preocupado com a crise econômica, que afetava indistintamente todos os cidadãos de sua querida Banana Verde, mas mais fortemente os, como dizia, "menos afortunados", resolveu promover uma campanha filantrópica: que cada um desse ao seu semelhante aquilo que pudesse, num gesto cristão de amor ao próximo.

Durante dias ele esteve presente em todos os lugares da progressista Banana Verde, divulgando, incentivando, ilustrando, com o poder de sua palavra, a importância de ajudar os "menos favorecidos" - ou "afortunados".

- Quem dá aos pobres, empresta a deus. Não podemos deixar os nossos irmãos passar dificuldades. A crise é séria, mas juntos podemos, com nosso trabalho, com nossa generosidade, diminuir os transtornos que ela causa aos nossos irmãos.

A campanha foi um sucesso.

Arrecadou de tudo: das inevitáveis roupas usadas (algumas velhas, mesmo) até dentaduras.

E, para coroar o êxito, o dr. Mesóclise deu uma entrevista para o solerte Augusto Nuno, a voz da rádio Progresso, campeã de audiência na região:

- Parabéns, dr., pelo sucesso da campanha. Os bananaverdenses menos favorecidos o agradecem. Mas diga uma coisa aos nossos queridos ouvintes, uma curiosidade: qual foi a sua doação?

O dr. Mesóclise pigarreou antes de responder, com sua voz inconfundível e seu português irretocável:

- Doei a minha solidariedade. E doa-la-ei sempre que houver necessidade.

No Bar do Toco, tradicional ponto de encontro dos pés de cana de Banana Verde, Zé Gesseiro, um dos mais notórios frequentadores, não resistiu e provocou:

-  Sorte sua, dr., que tem um monte de solidariedade para doar. Na minha ninguém mexe... 

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