Um exemplo de vida



O baiano Ruy Barbosa era um farol para o dr. Mesóclise.

Desde pequeno admirava aquele brasileiro que, para ele, sintetizava todas as virtudes humanas.


Apreciava, porém, uma em particular: a eloquência do jurista, político, diplomata, escritor, filólogo e tradutor.


Quando se sentia angustiado por qualquer motivo, o dr. Mesóclise evocava a figura de Ruy Barbosa, procurava se lembrar de seus escritos e recitava, baixinho, para si, como uma oração, aquela sentença que era um guia para a sua vida.


Foram tantas vezes que murmurou a citação, que viu as suas palavras passarem pelos seus olhos, que poderia dizê-la de trás para diante.


Era uma beleza!


Naquele momento, ressentido por ser informado que um de seus mais terríveis rivais, aquele Zé da Botica, sujeitinho presunçoso, o havia derrotado para a presidência do Grêmio Literário, o dr. Mesóclise cerrou os olhos, tragou o quanto mais pôde o ar saturado de oxigênio da querida Banana Verde, e ouviu seus lábios rezarem a oração mais que perfeita jamais criada na longa trajetória da civilização:


- De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.


Feito isso, cofiou o bigode, limpou os óculos, pegou a sua bengala e saiu de casa, passo firme, cabeça erguida, certo de que a derrota foi apenas mais um contratempo a ser superado pelo seu inegável talento e força de vontade.


- Derrota-lo-ei na próxima eleição. Não desapontarei a memória do dr. Ruy.


E seguiu adiante para a sua primeira missão do dia - cobrar os juros do empréstimo que fez ao Altino da padaria.

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